segunda-feira, 4 de junho de 2012

O outro lado

Quando eu percebi ele já estava atirando nas pessoas, mas eu não tive tempo para reagir.

Estavamos no bar, bebendo uma cerveja e conversando, como era nosso hábito de toda sexta-feira, quando o casal chegou, ambos de cara amarrada e meio que discutindo. Mas como isto aqui é cidade de gente fiasquenta mesmo, nem demos bola e continuamos com a cerveja e as piadas...

Quanto tempo faz? Nossa, já perdi a noção de a quanto tempo atrás ocorreu aquela confusão. Depois dos tiros, do choro e todo o sangue que vimos, os dias e meses passaram como um borrão, onde eu confundia facilmente dias e noites, sem saber que dia era da semana.

Acredito que cada um tenha o seu tempo, pois algumas pessoas ainda estão meio desnorteadas com o que aconteceu e não acharam mais um norte, um ponto para se guiar. Vejo alguns, embora muito eventualmente, ainda vagando pelas ruas da cidade sem saber o dia, hora ou para onde estão se dirigindo.

O Ricardo me falou que eu levei alguns anos, mas ele também não tem certeza, pois ele mesmo não sabe quanto tempo levou para acordar do transe e não pode fazer absolutamente nada por mim, até que eu estivesse pronto.

Ficamos por dias calados, simplesmente sentados, contemplando o sol, as nuvens, o canto dos pássaros e as pessoas transitando, levando suas vidas ocupadas, ignorando umas as outras, como sempre. Nestas horas eu me pergunto o porquê de estarmos presos aqui, se é que aqui é real, e porque não conseguimos conversar com muitos dos que passam por nós. É como se estivéssemos em uma outra dimensão, intocados pelos anos e pelas outras pessoas, aguardando não sei o quê, até não sei quando.

Uma única vez eu vi uma luz, foi o que eu achei que era. Envolveu um menino que chorava no meio-fio, como se fosse o foco de uma luz no teatro. O guri parou de chorar, secou as lágrimas e saiu bem tranquilo pela rua, dobrou uma esquina e desapareceu. Eu sei porque o segui até a dita rua, mas até agora não o vi mais, tampouco a tal da luz...

Como eu morri? Como o Ricardo, alvejado pelo maluco que discutiu com a namorada, sacou uma pistola e meteu bala no rosto da menina. Tentamos acudir, assim como a metade das pessoas no bar que não havia corrido para a rua, mas o sujeito começou a atirar para todas as direções, onde eu entrei pelo cano com uma bala no peito. Meu amigo eu não sei, e ele fala que não lembra de onde levou o tiro, apenas que sentiu o sangue na boca e me viu com a mão no peito enquanto eu cambaleava derrubando mesas e cadeiras pelo meu caminho.

Eventualmente nós vemos a menina passar chorando e o namorado explodir os miolos pela milésima vez no mesmo bar, onde ainda se reunem nossos amigos, embora muito eventualmente, envelhecendo e bebendo uma dose extra em nossa memória, nos finais de tarde de algumas sextas-feiras...