quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Longe, longe, longe...

Você anda pela rua e, diariamente, encontra diversas pessoas que são completamente estranhas para você. Porém, com o passar do tempo algumas destas estranhas criaturas começam à nos parecer familiares. Neste ponto começamos à entrar no terreno conhecido como rotina.

Todo dia no sinal de trânsito perto do trabalho você olha para sua esquerda e está lá o tio vendendo churros e passando, ora mais à frente, ora mais atrasada, a garota de óculos de aro colorido e longos cabelos negros.

Naquela viagem de metrô diária, tem sempre o tiozinho meio tarado que está lá, em pé, mesmo com lugares vagando, ao lado da mulata de seios fartos, quase derramando a saliva para dentro do decote, por vezes, quase inexistente da mulher.

Seria covardia citar o restaurante, onde você come o seu "grude" diário...

Notoriamente, em alguns passeios pelo centro da cidade ou, como no meu caso, pelo centro de Porto Alegre, você reencontra diversos seres que já habitaram ou habitam seus caminhos, mas continuam sendo seus "conhecidos desconhecidos".

Tenha certeza de que você mesmo é um ser deste tipo para várias pessoas. Muitas destas você nem mesmo registrou ainda, mas elas estão lá, notando você, computando quantos dias você usa seguido o mesmo tênis ou sapato, se fez ou não a barba... sinistramente ocultas, fora de seu campo de visão...

Uma delas me abordou um dia no metrô: - Oi! Você viu o que aconteceu com o seu Nicanor?!

- Não. - Respondi atordoado.

- Parece que foi derrame... - e ficou balançando a cabeça como se estivese confirmando ou esperando que eu elaborasse algum comentário, o que não aconteceu.

Trabalhei o dia inteiro com aquele olhar insano em mente, pensando na confusão mental da mulher... eu não sei até hoje quem é o seu Nicanor, se ele ainda estava vivo ou se já havia morrido, quem era aquela mulher, quantas almas ela deve ter encaminhado para outros mundos ou qualquer coisa assim.

Meu maior problema nisto tudo é não saber se eu era um "conhecido desconhecido" deles, se ela me confundiu com alguém ou se era simplesmente uma senhora completa ou parcialmente maluca que resolveu puxar uma conversa de um modo um tanto quanto inusitado...

O alívio é saber que não era cantada, pois nunca vi alguém começar uma conversa neste tom beirando o macabro...

***

Não matei ninguém e nem morri!!!




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