terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sobre o Calculismo...

O xerife chega apressado ao escritório. O negro bigode que pendia desarrumado pelos cantos da boca, combinado com sua expressão "amassada", lhe entregava os longos anos de experiência no cargo.

- Desculpe lhe ligar no meio da madrugada, xerife, mas tinha certeza de que o sr iria gostar de ver isso!
- Onde ele está? - perguntou o xerife em tom eufórico.
- Na sala de interrogatório. Mas o desgraçado não disse nenhuma palavra.
- Ora, cadete, ninguém fica calado quando entra na sala de interrogatório comigo!

Dizendo estas palavras, o xerife passou a mão em uma pilha de documentos e adentrou a sala. Ao fundo, avistava um homem que beirava os 50 anos, pele parda e ar cansado. Em sua face, ostentava um discreto e irônico sorriso.

- Ora, ora. Vejam só quem resolveu aparecer em minha casa! - disse o xerife em tom de deboche. Vejamos o que temos aqui. Vinte e quatro mortes nos últimos oito anos. Todos homens, todos pais de família, todos com bons empregos. Nunca deixou uma digital para trás, nunca deixou um fio de cabelo... E hoje está aqui. Eu te peguei, desgraçado.

A expressão no rosto do homem permanecia inabalável.

- O pessoal disse que te achou sentado ao lado desta última vítima. Parado, com esse mesmo sorriso cretino no rosto, segurando uma faca na mão e com um gravador, vazio, no bolso. Aliás, isto me deixa um pouco curioso. O que você fez com os pés e as mãos daquele cara? Onde você colocou? Me diz...

Neste momento a expressão do xerife começava a ganhar um ar mais ameaçador. Mas o homem ainda permanecia em silêncio. O xerife levantou, pegou um pequeno cacetete que permanecia no canto da sala, virou-se novamente para o homem e, no momento em que ia iniciar seu "intrrogatório", foi interrompido pelo guarda que apontava na porta com outra pilha de documentos na mão.

- Desculpe interromper xerife, mas é que o sr precisa ver isso... Encontraram os pés e as mãos... Dentro da barriga do cara...

Agora, no rosto do assassino, brotava um riso menos discreto do que o anterior, ao passo que se tornava difícil para o xerife e o cadete esconderem seu espanto.

- Seu anormal, como você...
- Espera xerife, tem mais... Também encontraram uma fita cassete dentro do cara...

Engolindo seco, o xerife toma a fita em suas mãos e dispensa o cadete. Pega o gravador encontrado com o meliante, insere a fita e aperta o botão play.

- Boa noite, xerife! - saúda a voz de um jovem. Como tem passado? Resolvi lhe fazer este recado especial para quebrar um pouco desta formalidade, já que nos conhecemos a tanto tempo! Sabe, estou começando a ficar cansado desta brincadeira! Afinal, oito anos é um longo período.
O sr. deve estar se perguntando quem é este homem sentado à sua frente. Pois bem, este é meu professor. Ele esteve comigo durante todo este tempo. Peço que não se engane com sua aparência. Este homem é um grande sábio quando o assunto é artes marciais, anatomia, técnicas de tortura e de despiste. Peço-lhe também que não o critique por estar tão quieto, pois mesmo que fosse sua vontade, o veneno que ingeriu adormeceu toda sua mandíbula, juntamente com a língua, impedindo que ele profira qualquer palavra. Bem, mas não foi por isso que gravei este recado. Como disse antes, estou começando a ficar cansado destes joguinhos. Então vamos direto ao assunto. A esta altura, seus homens já devem ter descoberto que o sangue na faca não era o mesmo do corpo que encontraram ao lado de meu tutor. Também devem ter percebido, se tiverem pelo menos um neurônio pensante, que as mãos e os pés eram pequenos demais para pertencerem ao falecido. O que me faz lembrar de outra questão, o sr. deu boa noite à sua filhinha antes de dormir?

O xerife sentiu um frio lhe cortar a espinha. Sentia como se uma bomba tivesse caído sobre sua cabeça. Voltou-se em direção à porta mas suas pernas não obedeciam. Apenas sentia seu corpo lutando contra a queda eminente. Suas forças se esvaiam e ele aos poucos tocava o joelho no chão.

- Pois bem, meu velho amigo - continuou a gravação - é uma pena, mas esta brincadeira chegou ao fim para você. Sem ressentimentos. Gostaria apenas de lhe avisar que meu professor era quem me controlava o que significa que agora é que irá começar a verdadeira matança! Ah, e espero que o sr. não tenha nenhuma alergia à veenos que se espalham pelo ar! Um grande abraço de seu velho amigo...

Fez-se o silêncio na sala de interrogatório. Apenas algumas horas mais tarde o cadete encontraria o mórbido corpo do xerife deitado ao chão, próximo a cadeira em que jazia o falecido professor com seu sorriso irônico.



Ezequiel Tarantino

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sobre Platão 2...

Ele apenas aguardava... Solitário, na escuridão de seu quarto apenas admirando a luminosa janela de esperança que descansava sobre a escrivaninha... Aguardava, pois aquilo era a única coisa que lhe restara...

Mãos trêmulas, pernas impacientes e a espera que não findava... Seu corpo suplicava por repouso... As pálpebras lutavam contra a gravidade no receio de, em um piscar de olhos mais profundo, pôr tudo a perder...

A noite adentrava, mas nada foi em vão... Como que atendendo sua prece, ao canto surgia ela... Seu anjo, sua perdição...

Oi...





Ezequiel Bringstone

sábado, 27 de agosto de 2011

Sobre a Sinceridade...

O homem está caminhando pelo saguão do shopping center, quando ao fundo do corredor avista uma agência de turismo. Como estava lá apenas matando tempo, decide ir até a agência para dar uma olhada nas ofertas. Muitos destinos lhe pareceram interessantes, mas era difícil decidir com tantas opções. Resolveu entrar na agência.

- Boa tarde.
- Boa tarde - respondeu o atendente engomadinho.
- Estou querendo programar uma viagem para as férias, mas não gosto destes pacotes fechados com visitas programadas e provavelmente viajarei sozinho. O que você me aconselha?

- Aconselho que arranje uma namorada...
- ...




Ezequiel Doodle

domingo, 21 de agosto de 2011

Velha Cara Nova

Buenas!

Mais um post para explicar mudanças...

Na verdade estamos em obras, visando uma evolução natural da página. Até tentamos algo mais dinâmico (por uma meia hora), mas nossos conhecimentos inexistentes em edição de html não são avançados. Mas tá ficando bonito!

Faz mais de um ano que o Ezequiel mantém o blog praticamente sozinho e que eu contribuo eventualmente, então, como nossos camaradas desistiram mesmo do blog, deixamos seus links lá no pé da página, num cantinho da memória, para honrar seus dias de contribuição.

O projeto original está mudando também, pois quando iniciamos este espaço, a ideia era falar sobre música, teatro, cinema e outros bichos, o que está meio que em segundo plano, agora que estamos pegando gosto pelo tal do "bicho" conto. Vamos ver onde chegaremos (ou não).


***

Duas horas da manhã pode não ser um bom horário para tentar esperar um ônibus em uma cidadezinha do interior do estado. Aliás, em qualquer cidadezinha de interior em qualquer canto do planeta. Mas eles perseveravam e aguardavam que uma condução cruzasse pela via mal iluminada e os levasse para o outro lado da cidade.
Aguardaram em mórbido silêncio, até que por volta das quatro da manhã um daqueles coletivos antigos, lá da década de cinquenta apontou na esquina, vindo a parar no ponto para que os dois embarcassem.
Eles olharam para o velho homem ao volante, que acumulava a função de motorista e trocador, e após olharem-se, decidiram embarcar. O condutor acionou a alavanca para fechar a porta, que fez um barulho tão forte ao realizar o movimento que parecia preste a desintegrar-se na próxima vez que fosse acionada.
O ônibus partiu e desapareceu em meio à neblina na primeira esquina.


sábado, 20 de agosto de 2011

Sobre Julgamentos...

A "madame" está sentado no banco do ponto de ônibus quando ao longe avista um homem de meia idade, com uma barba branca desajeitada e trazendo em seu ombro uma mochila velha e surrada. Certamente não era um pedinte, mas suas vestes velhas e com um aspecto não muito limpo, davam a impressão de que aquele homem não se importava muito com higiêne... O homem continuou andando e sentou ao seu lado.

- O senhor não devia andar desse jeito pelas ruas - disse a mulher com certo ar de repuna.
- Desse jeito como?
- Desse jeito, mal vestido , barba mal feita...

Após um breve silêncio o homem respondeu:
- Talvez eu goste de ser assim...
- Ninguém gosta de andar assim!!! E, além do mais, fere os olhos das outras pessoas...

Outro momento de silêncio... O homem retoma:

- Bem, então eu convido a senhora a fazer um pequeno exercício mental, por mais desconfortável que isso possa ser para a senhora... Primeiramente faremos algumas considerações. É necessário saber que existem Teorias da Comunicação que, em sua grande maioria, estudam, basicamente, como uma mensagem enviada por um emissor chega e é interpretada por um receptor, e o efeito que isto causa.
    Pois bem, quando eu acordo pela manhã, não faço a barba e visto esta minha roupa velha e rasgada, estou criando uma imagem minha. Imagem esta que seria completamente diferente se tivesse a barba escanhoada e vestisse um bom terno. Depois de me vestir, saio à rua em direção ao ponto de ônibus e encontro a senhora, que olha para mim e tem a impressão de que não dou importância para minha aparência e associa, mesmo que subconscientemente, minha imagem à de um mendigo. Então este é um emissor (eu) enviando uma mensagem (aparencia desleixada) à um receptor (a Sra.) que vai interpretar esta mensagem como bem entender. Claro, existem muitos fatores sociais, psicológicos, sociológicos, etc. ligados à sua interpretação, mas não falaremos disso.
      Então, neste momento, me comparo à um ilusionista que cria esta imagem e mostra para a senhora que, consequentemente, enxerga somente aquilo que eu quero que a senhora enxergue. Ou seja, um cara sujo e desleixado. Isto pode parecer meio complicado e desnecessário, mas o que quero que a senhora entenda, é que tudo isso revela muitas coisas. Coisas sobre a senhora. Realizando este primeiro julgamento precipitado sobre mim, conseguimos perceber que a senhora é facilmente manipulável e não tem nenhuma perspicácia, rendendo-se à uma imagem criada (e distorcida) por alguém e se baseando em métodos comparativos subvertidos por uma sociedade submissa aos padrões de beleza impostos pelas mídias ao invés de tentar utilizar um pouco de seu próprio cérebro e tirar conclusões mais condizentes com a realidade.

Boqueaberta, a mulher permaneceu estática por alguns instantes. Apenas tentando digerir tudo aquilo que havia presenciado.

Notando o ar de surpresa de todos que observavam a cena, o homem inclinou-se calmamente em direção à mulher e acrescentou em tom irônico:

- Existem por aí pessoas com muito dinheiro...
  Existem pessoas muito bonitas...
  Mas também existem pessoas que preferem ter cérebro...

Depois disso o homem levantou e retomou seu caminho. Os dois nunca mais voltaram a ver um ao outro.





Ezequiel Rogers